quarta-feira, 31 de maio de 2017

Um Sonho

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Dá-me A Tua Paz

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Poema
Voz
Imagens
de Mel Almeida

O Grito

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Ausências

Ausências
Sei que moras nas ausências
Até de ti mesmo
E vives ascético, sorrindo
Pensas que silenciando a vida
A morte se esquece de nós.
Nunca ninguém te disse que o sexo
É apenas sexo se não existir amor
E que os corpos sem amor
Apodrecem no silêncio e na dor
Dás-te como quem reparte o que tem em excesso
Rebelde é o coração que não sabe receber
As tuas mãos estão vazias.
E rodeadas apenas de paredes alvas
Onde o tempo deixou marcas como carvão
Ardes sem chama, e a tua alma
Clama sem voz
Quem te poderá ouvir
Se o vento fez morada no teu deserto
Que disparidade existe no ser cru
Esmorecido e mortificado.
O sol que te alimenta o corpo
Queima a vida que te traz com fome
Fome de verdade, de razão
Fome de amor e paixão
.

Muros Líquidos



Muros Líquidos

 Há em mim uma longa estrada
Que irónica me galga a vida
Como se entre muros líquidos
O calendário não descobrisse a saída.
Há um rio de pedra a ferver
Com margens veladas de sentimento
Tremo só de pensar o abeiramento
E, nos céus de chumbo que me gemem
Há pontes adensas por terminar
Homens a sorrir pelo sémen
Mulheres a parir devagar.
Enquanto as estrelas sorriem
Eu finjo dormir ao relento
E sonho-as a pousar no meu chão lento.
O menino de cima acorda-me, chora no berço
Perdeu a chupeta, será que tem frio?
Oh a vizinha ainda reza o terço!
Que horas são?
- Pergunta a mente em ebulição
No sono preso por um fio.
 Valha-me a esperança que se dissolvam
As consciências de fumo
Valha-me tudo o que existe e amo
Porque odiar eu não sei
Só sei que a sonhar, sou tudo o que sonhei.
Só os poetas
Despertam fatalmente
Só os poetas lamentam
Só eles a sangrar
Tentam …
Dar sorte ao azar!



Quem és tu?



Quem és tu?
Que me prende na noite branca
E me abraça com o luar nos ombros
E num silêncio total e gasto
Me solta o peso de todas as palavras que arrasto.
E de todos os voos que nos meus braços aprisiono 
Quem és tu?
Pergunto no silêncio que me desperta
O sangue ainda quente no vazio inerte do meu leito
Sangue que invade e vaza a timidez de todos os meus rios
Onde solitária e breve me delicio
Numa serenidade que vocifera a minha alma silente. 
Quem és tu?
Que na noite longa e exaltada me devolve a luz
Em atalhos de estrelas bordadas que me queimam como brasas
Me devoram e cospem sem dó.
Ainda hoje permaneço na dolorosa espera
Que um dia me devolvas todos os beijos
Que deixei nos teus lábios e faltam na minha boca. 
Quem és tu?
Que um dia me disse
Que todas as vidas têm caminhos semelhantes
Sentou o tempo no seu colo
Adormeceu as tempestades sem rumo
E acordou as tardes vagarosas no brilho dos seus olhos. 
Quem és tu?
Que das estradas fez tapetes em delírio
Colheu flores em muralhas de gente
Na minha boca escreveu o seu nome
E no meu corpo depositou a semente
Que faz nascer poemas órfãos de frio. 
Quem és tu?
Que me apontou o vulcão quieto e manso
Que enfrentámos com olhares de espanto
Me fez acreditar com voz firme
Que todos os rios têm fome
E que todas as pedras sabem cantar. 
Quem és tu?
Que me talhou tão imperfeita
Que de tudo fiz uma verdade
Julguei ser uma deusa no teu colo, vesti-me nua, com sedas de outros mundos
Fiz amor nas estrelas e habitei deleites profundos
Mas também que importa se a perfeição não conhece todas as portas
E as ilusões são de quem as conduz. 
Quem és tu?
Que neste altar vivo onde te pouso
Choram mil chagas em mim do tanto que me espantas e espancas
Como um vil escravo monstruoso.
E num profano sorvo experimento-me sem me mentir
Como um santo, um pregador e um pecaminoso!
Oh meu Deus, quem me dera ser outra naquela que sou
Amar-te seria o verso mais vivo que alguém já gerou.
Quem és tu?
Quem sou eu?
Quem foi que me fez crer
Que escrever é tocar em multidões de poetas
Em pedras quietas e em céus a arder.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

E Por Vezes



E por vezes
por vezes
Sou tão escassa que temo não me bastar
E por vezes
por vezes
mergulho no meu azul infinito e singular
E por vezes
por vezes
sou floresta virgem subtraindo a claridade ao solo
E por vezes
por vezes
sou mar bravio que morre no areal do teu colo
E por vezes
por vezes
sou astro e sangue quente nos teus braços ausentes
E por vezes
por vezes
 sou aquela que nada possui e sonha dar-te do mundo todas as cidades
E por vezes
por vezes
sou imaculada aos olhos da imbecilidade
E por vezes
por vezes
 sou o meu próprio e indizível tormento
E por vezes
por vezes
sou quem não reconhece a sua própria pele na pele do tempo
E por vezes
por vezes
 sou a libido que te agita, provoca e abandona
E por vezes
por vezes
 sou o grito abafado o gemido contido num cenário envenenado
E por vezes
por vezes
 sou margem, sou centro, sou aragem sou lamento
E por vezes
por vezes
sou apenas um cigarro que não fumo e sufoco entre os dedos
E por vezes
por vezes 
sou breve,  intensa, sou ave, sou fera que me atenta
E por vezes
por vezes
sou coragem, sou medo, sou desabafo, sou segredo
E por vezes
por vezes 
sou apenas a eternidade dos versos que amo e não escrevo
Apenas… Por vezes.

Um Sonho