segunda-feira, 29 de maio de 2017

E Por Vezes



E por vezes
por vezes…
Sou tão escassa que temo não me bastar
E por vezes...
por vezes
mergulho no meu azul infinito e singular
E por vezes
por vezes…
sou floresta virgem subtraindo a claridade ao solo
E por vezes
por vezes…
sou mar bravio que morre no areal do teu colo
E por vezes
por vezes…
sou astro e sangue quente nos teus braços ausentes
E por vezes
por vezes…
 sou aquela que nada possui e sonha dar-te do mundo todas as cidades
E por vezes
por vezes…
sou imaculada aos olhos da imbecilidade
E por vezes
por vezes…
 sou o meu próprio e indizível tormento
E por vezes
por vezes…
sou quem não reconhece a sua própria pele na pele do tempo
E por vezes
por vezes…
 sou a libido que te agita, provoca e abandona
E por vezes
por vezes…
 sou o grito abafado o gemido contido num cenário envenenado
E por vezes
por vezes…
 sou margem, sou centro, sou aragem sou lamento
E por vezes
por vezes…
 sou apenas um cigarro que não fumo e sufoco entre os dedos
E por vezes
por vezes…  
sou breve,  intensa, sou ave, sou fera que me atenta
E por vezes
por vezes…  
sou coragem, sou medo, sou desabafo, sou segredo
E por vezes
por vezes… 
sou apenas a eternidade dos versos que amo e não escrevo
Apenas… Por vezes

Geraldo Sem Pavor



Geraldo Sem Pavor

Chegados ao século XII
Forjados nas mudanças e endurecidos por figuras emblemáticas
Eis que aparece, um mui nobre e temível lutador
O grande devedor, Geraldo Sem Pavor
Este, sem modéstia, oferece-se sem pudor
A D. Afonso Henriques
E, numa atitude vertical, com a espada a pique
Em voluntariado arrasador
Levantado o braço qual vencedor
Toma a cidade de Évora e seu termo
Que oferece ao seu senhor.
Padecemos quanto baste, entre batalhas
Seus temores e vozes de gralhas…
Geraldo Sem Pavor
Num gesto leal, a entrega ao seu soberano
E, na Praça principal, o seu a seu dono
Praça exibindo com honra e dignidade
O nome daquele destro libertador
Com destreza deu à cidade
A alegria penetrante de vencedor
Geraldo Sem Pavor.
Imprevisível, grande lutador
Sem medos e ainda sem dano
De tanto calcorrear pela planície Alentejana
Que Deus o tenha
Começa perdendo terras, e de mente quase insana
Sobra-lhe o solitário Castelo de Juromenha.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Tenho um cais dentro do peito



Tenho um cais dentro do peito
um cais que se some no nevoeiro
e me deixa solitária e presa
às manhãs que não me pertencem.
Sobra-me um muro
um muro de gente indiferente
encostado ao cais
onde invento as tardes de gente que não sonha.
E os navios dormem lá longe
sem gaivotas a voar sobre si
porque ficaram aprisionadas ao meu peito
e gemem-me moribundas
dizendo que não têm forças para partir.
Tenho um cais dentro do peito
que hei-de voltar em mim a reconstruir.
cheio de gente a vibrar, de barcos espertos e gaivotas a sorrir.


terça-feira, 14 de julho de 2015

Quando eu de mim já não for


Deixa repousar sobre mim
a madrugada
Tenho medo da escuridão
e do silêncio do nada
Deixa ficar também uma flor
uma rosa encarnada.
Depois, podes ir meu amor
eu ficarei encantada
no meu túmulo de luz e cor.
Mas antes de ires embora
ajoelha-te e reza
Reza-me um poema qualquer
Um poema que fale de amor e paixão…
Dum homem e d´uma mulher
Depois vai…
Vai embora por favor
Temo que eles te vejam
e te queiram como eu ainda quero
e nada me seria agora mais penoso e severo.
O dia já vai alto e eu preciso sair de mim.
E tu não podes mais me acompanhar
porque eu já não assento os pés na terra pra caminhar.
Agora serei o teu guia... E sem que me vejas
Vou seguir-te pra onde fores
e todas as noites, serão dia...
e vou proteger os teus passos de todos os malfeitores
e o teu corpo de todas as dores.
Vai meu amor, mas volta... !
Volta sempre com um poema pra me rezar
serei a alma mais grata que ao Céu vai espreitar
Obrigada meu amor
pela rosa
pela luz que me deste
pelos poemas que me rezas nesta vida celeste…
Vai...!
Obrigada meu amor.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Estão cansadas as minhas mãos



Estão cansadas as minhas mãos
E deixam marcas nas paredes do meu rosto
A minha pele franze-se ao frio que entra pelas janelas da mente
Estou cansada e nada tenho que me seja urgente
Somente portas e janelas voando do meu corpo
Corpo, que aprisiona o sangue que se dilui em absolvição
Como um rio que se pavoneia sem fôlego.
Há uma face translucida que me sorri morna
Num espelho disforme num ato decomposto
Sobram-me aves… Falta-me rosto
E dentro de mim ergue-se uma voz confusa e magoada
Que me grita mas, eu não entendo absolutamente nada!
Desenho no chão uma boca a sorrir
Adentro-me e deixo-me ir.
E as palavras engasgadas com o meu corpo
Dizem-me sufocadas:

Estou tão cansada de ver o que nenhum vê
Estou tão cansada de sentir o que nenhum sente
Estou tão cansada de ser repetidamente
Um dia novo a anoitecer na gula do tempo que tanto mente.
A minha alma está cansada e afasta-se de mim
Talvez pra descansar…?!
Dizendo-me:” Até sempre!...”

terça-feira, 23 de junho de 2015

O Céu, a Terra e o Mar

Para te encontrar
exorcizei
a terra
o céu
e o mar
Encontrei-te!
E, hoje
Peço que me devolvam o chão,
porque não tenha onde pisar
peço que me devolvam o céu,
porque não vejo
o sol
a lua
nem as estrelas a brilhar
peço que me devolvam uma só onda
E, eu
chamar-lhe-ei: Meu mar!
Peço que me devolvam a vida
porque me perdi,quando te encontrei no meu olhar!
 

Por vezes

E por vezes
por vezes…
Sou tão escassa que temo não me bastar
E por vezes
por vezes… mergulho no meu azul infinito e singular
E por vezes
por vezes…
sou floresta virgem subtraindo a claridade ao solo
E por vezes
por vezes…
sou mar bravio que morre no areal do teu colo
E por vezes
por vezes…
sou astro e sangue quente nos teus braços ausentes
E por vezes
por vezes…
sou aquela que nada possui e sonha dar-te do mundo todas as cidades
E por vezes
por vezes…
sou imaculada aos olhos da imbecilidade
E por vezes
por vezes…
sou o meu próprio e indizível tormento
E por vezes
por vezes…
sou quem não reconhece a sua própria pele na pele do tempo
E por vezes
por vezes…
sou a libido que te agita, provoca e abandona
E por vezes
por vezes…
sou o grito abafado o gemido contido num cenário envenenado
E por vezes
por vezes…
sou margem, sou centro, sou aragem sou lamento,
E por vezes
por vezes…
sou apenas um cigarro que não fumo e sufoco entre os dedos
E por vezes
por vezes…
sou breve, intensa, sou ave, sou uma fera que me atenta
E por vezes
por vezes…
sou coragem, sou medo, sou desabafo, sou segredo
E por vezes
por vezes…
sou apenas a eternidade dos versos que amo e não escrevo
Apenas… Por vezes!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Procuro-te

Procuro-te
no cume das montanhas
e não te encontro...
desenterro-te das profundezas da terra
e não te reconheço
mergulho no fundo dos oceanos
e não consigo tocar-te
voo com as aves em céu aberto
e não te vejo
procuro-te
nas multidões
e todos os rostos me parecem disformes
de uma violência enorme...!
Não, não te encontro
nem te procuro mais
porque não sei jamais onde te procurar...
e destroçada a minha alma vocifera num grito abafado
e, é aí que em mim que te identificas, adormecido e tatuado
intacto no sagrado
e despedaçado no profano indefinido.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Silabas mudas

***
Caem sílabas mudas
nas pedras nuas
da rua quente
Não passa ninguém...
Só cantam as aves
e apenas as folhas indiferentes
mergulham
na sombra das árvores

* * * .

Meu sonho intacto

* * *
Sonho-te intacto
nas minhas mãos inertes
e num segundo eterno
de pedra e terra quentes
faço-te meu somente
em poemas que enlouquecem
adormecidos
E tu não sabes, nem sentes
O quanto me és querido.



* * *

Apeteces-me

 Sim, apeteces-me
como se fosses carne e osso
e se não te vejo
oiço-te.
Ah como amo amar-te
neste desejo em esboço.
Como amei provar-te
quando eras transparente
agora que não te vejo, nem oiço...
Sei que não te amo mais
e que tudo não passou de um sonho pertinente.
Mas apeteces-me indiferentemente
Talvez eu em ti me quisesse saber quem sou.
Aprovado está o desejo
que nos consome, e de nós some, depois de consumado.
Apeteces-me...
Oh palavras...Que tão bem sabem, quando me falam e as escrevo!
Palavra, apeteces-me!

Dei-te colo e choras-me


***
Gosto de improvisar
no que escrevo
gosto de caprichar
naquilo que não vejo

**
sou como a espuma
que depressa se esvai
no areal de sol e bruma
que a meus pés me cai
**
e se um dia eu for onda
abraça-me amor, não hesites
estou disfarçada de mar
pra que outro não me cobice
**
o meu caminho é incólume
segue-te, sem escolher se há lume
nos passos que dou parada
em direcção ao amor, ou ao nada
**
se me encontrares por ai
olha-me amor e sorri
eu ficarei a saber, então
que estou perto de ti
**
se os poetas não fossem loucos
quem de louco o seria
antes poetas e poucos
do que loucos sem poesia.
**
O meu mundo não tem tamanho
faço dele um gigante a cantar
e depois de o agigantar tanto
fujo para dentro de mim a chorar
**
Poetas, poetas escrevam sempre
porque sem a poesia sois incompletos
e do que vale viver com saudades do vento
E chorar o frio num tempo ardente
***

Des/amar/ des/umano

Não sei onde foi que errei...
Mas também que me importa...
Se errar é vida
E quem não erra, está morta!
Vou continuar errando, certamente
pois que me seja urgente errar
e amando, vou
indiferente, ao que me sou.
E se o céu chorar por mim
que seja de alegria insana
porque amar não é utopia
E (des)amar, é desumano.

Quero-te tanto!

* * *

Como te quero que nem sei dizer o quanto...


E enquanto te espero não sei o que fazer com o tempo?

* * *

Apenas


Apenas um beijo
sem pedir
apenas um abraço
a sorrir
apenas uma ave
a voar
apenas uma onda
a morrer
apenas um sol
para aquecer
apenas uma estação
pra viver
apenas uma pedra
a chorar
apenas uma noite
pra amar
apenas uma voz
no ar
apenas tu
em tudo..
perdido de ti
Apenas!

* * *

* * *

Hoje até nas sombras te sinto e nas vozes dos outros te oiço.

* * * 

Inquietude

Que inquietude é esta?
que me devora inerte
e se demora
Mas tudo me diz que passa
é só mais uma sombra
e vai embora
Mas tudo me diz que és meu,
e tudo me pede que não me demore.
Que inquietude é esta?
que me confunde e enlouquece
que me prende, solta e arrefece
que me esquece e promete recordar.
Que inquietude é esta?
que extinguiu o fogo do meu corpo
e o deixou na sombra de outros sóis
Onde já nem sei se adormeço
ou se sonho como todos os mortais.
Só sei que já não me reconheço
E apenas me pareço,
com alguém, que à vida emprestou,
Tudo o que tinha de seu
e a vida usou e gastou,
e hoje vagamente me lembro quem fui, ou quem sou.

Gozada a vida



Quero a vida
arrepiada
despenteada
adormecida
acordada
maquilhada
limpa
imunda
suave
funda
em sossego
desassossegada
amarga
doce
dura de roer
a seco
molhada
soalheira
ou trovejada
quero a vida
num beijo
num abraço
num amasso
numa bebedeira
numa loucura inteira
num sofá a lê-la
numa cama a amá-la
quero a vida
grávida de mim
e eu, grávida dela
e, ao pari-la
pela vida fora
vou sorrindo
vou chorando
vou gritando
vou escrevendo
vou cantando
vou dançando
e nessa caminhada eu digo à vida: puta que pariu vou gozar-te com a arte que te é devida... Vais ver?!
E pudesse eu ser eterna que me havias de temer?!
mesmo assim te digo: Nada temo
Nem as sombras que me envias me metem medo
E se um dia vou ser pó
que seja num dia de grande vendaval
para correr o mundo inteiro, à boleia
agora enquanto for carne
vou-te dar muito trabalho...
hás-de roer-me com dentes de alho
e depois de te sufocares, vais cuspir-me e dizer":Dou-te vida novamente superaste todas as provas, com a nota que vale a pena ter!"

Cai a noite


Cai a noite
E a música nasce no meu corpo
E no teu corpo
E a lua dança connosco.
Os livros adormecem na mesa de cabeceira
Os copos de champanhe cristalizaram
Na hora em que os nossos corpos colados dançaram.
Cai a noite
E a música não pára de nascer
No meu corpo
E no teu corpo
As paredes são musica
E os nossos corpos possuem um desejo vegetal
Que escorre pelas portas e janelas do nosso interior
Cai a noite
E lá fora a vida parou
Mas nós existimos...
Num desejo animal que não resiste
Em dançar a música que os nossos corpos exigem.

Uma Sereia ou um Deus?!




Vejo uma sereia a passear-se no mar
Vai ondulante, seca, insegura e lenta
Qual prostituta em desalentado silêncio nos túneis da negrura.
Escondo-me na reticência impura do meu tempo
 Mas não tenho como disfarçar ao que assisto
E com um lenço de seda pura, insisto…
Em secar as lágrimas do seu sangue.
Ruborizada a sereia ao sentir-se observada
Diz-me em tom de voz sofrida e doce  
“Eu também escuto os teus lamentos
Qual arcanjo em jejum por longos tempos,
Sempre que perdes o chão do teu céu sagrado
 E te prostituis na timidez dos teus versos Ateus
Esquecendo-te de ti e encarnando num Deus.
Num Deus que te abraça com flechas de fogo
E o coração hostilizado pelo abismo da tua memória”
E com um pedaço de céu bordado sobre mim fez história
Com nuvens espessas de paz e amor
Seca as lágrimas de todos os poetas porque eles não merecem
Sofrer tanta dor… Nem tão amarga inglória.


E Por Vezes

E por vezes por vezes… Sou tão escassa que temo não me bastar E por vezes... por vezes mergulho no meu azul infinito e sing...